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O Chamado Selvagem




Considerado como a obra-prima de Jack London,  O Chamado Selvagem figura como uma das mais importantes histórias da literatura norte-americana a retratar o período da Corrida do Ouro através de um ponto de vista peculiar.

O protagonista da história Buck, um cachorro mestiço de Pastor Alemão com São Bernardo que vivia confortavelmente na fazenda de um homem rico nos EUA por volta de 1820. Porém, um dia ele é roubado por um empregado da residência, preso e posto em um trem de carga, cujo destino incerto o leva para muito longe de seu antigo lar. É maltratado e vendido para um estranho homem, assim como outros cães trazidos para o mesmo lugar. Buck é submetido então, á um violento treinamento.
Mesmo seu ódio e fúria lhe dando uma notável força e ferocidade, Buck aprende que nada pode contra ador causada pelo porrete. Domado, mas não amansado, Buck é novamente vendido para dois homens que estão partindo em uma longa viajem. O destino é o Alasca, exatamente no auge da Corrida do Ouro. Jogado nesse ambiente inóspito coberto pela neve, Buck sente-se um intruso em um caminho sem volta, no qual a realidade selvagem predomina.

Juntamente com outros cães em sua maioria Huskys ou mestiços) mais adaptados ou tão desnorteados quanto ele, Buck é atrelado á um trenó de carga. Á princípio, ultrajado por seu orgulho, Buck reluta á tarefa que lhe é imposta, mas logo aprende através do porrete e do chicote do homem e também das presas dos outros cães do grupo, que deve submeter-se ao trabalho se quiser sobreviver.



Nesse mundo selvagem, Buck vai, gradualmente, despertando seu espírito ancestral, a fera selvagem tão antiga quanto aquelas paisagens inóspitas e congeladas que formam o Alasca. A vida como um cão de treno é bem difícil e perigosa, onde cada dia é uma nova lua para sobreviver. Isso é  ilustrado com perfeição através dos olhos e da percepção do próprio Buck. Suas ações e possíveis pensamentos são narrados de forma onipresente por Jack London, gerando ao leitor uma empatia e vivencia dos acontecimentos fictícios que ilustraram muitas histórias reais que permanecerão para sempre desconhecidas
.
Jack London sempre interessou-se em abordar a relação homem/animal em suas obras; utilizando como cenário as belíssimas e inóspitas paisagens do Alasca, que ele viu com os próprios olhos, desenvolveu uma trama profunda na qual homens e cães lutam pela própria sobrevivência. O Chamado Selvagem foi publicado em 1903 no formato de folhetim e garantiu fama mundial para London. O sucesso da obra deve-se á diversos fatores, desde a história belamente escrita e a simpatia que sentimos por Buck, passando pelo relata de inúmeras histórias verídicas até - e talvez principalmente - por ter uma história que fale sobre aqueles cães de trenó com profundidade e exatidão.

Quando Buck é atrelado á um trenó junto com outros cães, acompanhamos a vida daquela matilha que gradativamente abandona o senso de domesticalidade e recuperam seu espírito selvagem. Os cães que ilustram essa obra possuem sua própria personalidade, tal como qualquer ser humano. Buck, o protagonista, é aquele que mais compreendemos e absorvemos o senso de aprendizado. Temos também o perigoso e traiçoeiro líder Spitz - cuja batalha entre ele e Bucky é um dos momentos mais memoráveis do livro; Pike, um cão covarde e preguiçoso;  o velho Sol-Leks, sempre responsável e solitário; dentre vários outros. Todos são fortes que procuram em seus espírito ancestral a força para continuarem sobrevivendo ali.


Tendo que manter esperteza, força e habilidade, a comida é escassa, as nevascas cruéis e a luta pela sobrevivência é solitária. No trenó, Buck descobre que existe apenas duas leis: a do porrete e a das presas. E para viver e se adaptar é necessário obedecer ao homem e se impor aos outros cães. Sofrendo maus-tratos tanto dos humanos quanto do próprio clima, na corrida do trenó Buck mergulha em uma jornada de auto-conhecimento.

A narrativa da vida dos cães de trenós é mostrada de forma real, colocando Buck como um ser capaz de sentir emoções e adquirir sabedoria (o que é uma verdade dos animais). Um cão forte e orgulhoso, Buck encara as adversidades sem medo. E é exatamente essas adversidades e instinto de sobrevivência que faz cães e homens a lutarem contra os perigos das natureza.

O Chamado Selvagem dispõem de uma narrativa semelhante á outro aclamado conto do mesmo escritor: Caninos Brancos. O sofrimento, dificuldades e árduas jornadas dos protagonistas caninos machucam o próprio leitor e, embora humanos também tenham participação, está é secundária ou responsável por induzir ainda mais a ferocidade dos cães-lobos. Porém, embora grande parte o livro mostra a vida cruel de Buck, há também a recompensa final após tanto sofrimento. O despertar de seu instinto não evita que ele possa encontrar em um humano o sentimento de amor e devoção, algo não ocorrido nas outras vezes. Com maestria, London retratou a relação homem-cão ainda que O Chamado Selvagem tenha um desfecho mais melancólico do que Caninos Brancos.

Mas talvez seja por causa de seu retrato melancólico e através de um animal a representar pontos de vista quase humanos que colocou O Chamado Selvagem como uma das obras mais difundidas da literatura norte-americana. A obra chegou a ser transformada em filme sob o nome de O Selvagem, embora careça do apelo emocional e filosófico contido no livro. Aliás, no livro podemos comparar o conceito do ditado: " o homem é o lobo do homem" ali colocado como "o cão é o lobo do cão".


O Chamado Selvagem é excelente por ser uma literatura de época histórica a narrar  uma trama desconhecida gerada através de todo o conhecimento e vivência de Jack London, fazendo com que o leitor - assim como Buck - embarquem na gélida aventura, reavaliando princípios e conceitos de civilidade, coragem, lealdade, descoberta e sobretudo, liberdade.

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